domingo, 29 de agosto de 2021

O Credo do Samurai

 O Credo do Samurai

Segue um poema entitulado “O Credo do Samurai”. Este poema foi o prefácio de uma cópia do Sun Tzu – A arte da guerra, escrito a 2400 anos atrás. O poema em si é atribuido a um Samurai desconhecido do século 14. Acredita-se que esse poema foi uma tentativa de se escrever o que não era escrito, apenas passado verbalmente de mestre para aprendiz, de senhor para servo, e de pai para filho sobre o Bushido.


A parte em negrito é o poema em sí



O CREDO DO SAMURAI



Eu não tenho Pais;

Eu faço do Céu e da Terra meus Pais


Não significa descartar as figuras paternas,

mas ver a si mesmo como um filho do Universo.

Um ser feito da mesma matéria e energia que todas as coisas.


Eu não tenho Poderes Divinos;

Eu faço da minha Honestidade meu Poder Divino.


O poder da verdade e da honestidade com o mundo e todos seus representantes,

sem devaneios, apenas a realidade na mente, equivale à graça divina.


Eu não tenho Lar;

Eu faço de Tan T’ien meu Lar.


O Tan T’ien é o nome dado ao nosso Eu interior… lá , e somente lá o Samurai está em casa.

Lar não é um lugar, lugares mudam, são vulneráveis, o Lar da própria mente no entanto é eterno.


Eu não tenho Meios;

Eu faço da Docilidade meus Meios.


Humildade e aceitar o que o destino te determinou.

O Bushido é mais importante do que riqueza e notoriedade, o Samurai leva sua vida de acordo com ele, sem desperdiçar tempo à caça de fama e fortuna.

Obediência e lealdade ao Daimiyo é o unico meio de que o Samurai precisa.


Sua docilidade lhe proverá de tudo.


Eu não tenho Poderes Mágicos;

Eu faço da minha Personalidade meus Poderes Mágicos.


Auto explicativo. Sua personalidade é o seu poder, é a única mágica que você realmente possui, e tudo oque você realmente precisa.


Eu não tenho Vida nem Morte;

Eu faço de A Um minha Vida e Morte.


A Um é o nome dado à alma imortal, eterna.

É o estado do espirito entre uma encarnação e a próxima.

Tsunetomo Yamamoto diz em seu livro (um dos mais compreensivos sobre o Bushido), O Hagakure :

“…O Caminho do Samurai, se encontra na morte…”

Toda a vida do Samurai é uma preparação para uma morte digna.


A visão da vida como um estado transitório, apenas mais um ciclo de sua existência, assim como a morte.


Eu não tenho Corpo;

Eu faço do Estoicismo meu Corpo.


Para um guerreiro, ser estóico perante a batalha é a maior virtude.

Para o Samurai, nós não somos carne. Somos espírito, somos atitude.

Não é o quanto nós vivemos, mas como nós vivemos o que realmente importa.

O Grande Samurai Miyamoto Musashi costumava dizer:

“A vida de alguém é limitada, honra e respeito são eternos.”


Eu não tenho Olhos;

Eu faço do Raio do Relâmpago os meus Olhos.


Nossos olhos são ferramentas fantásticas, mas mesmo quando perfeitos, podem nos pregar peças.

Mágicos ilusionistas, Cinema e a TV são provas disso.

O Samurai treina para atingir um estado mental chamado de Mushin, com a mente calma e vazia, e como os olhos observando o mundo como através de uma lente grande angular, que como o relâmpago, vê o todo num instante.

Ter confiança na conexão do A Um com o Universo, e sua intuição.


Eu não tenho Ouvidos;

Eu faço da minha Sensibilidade meus Ouvidos.


Não crer no que você ouve só por que está ouvindo aquilo.

Analise com sensibilidade, razão e lógica.

Palavras não querem dizer nada até serem processadas com inteligência.


Eu não tenho Membros;

Eu faço da minha Prontidão meus Membros.


Ninguém precisa pensar para andar, os movimentos simplesmente acontecem.

O Samurai não precisa pensar no que fazer para se defender, apenas que estar em prontidão para saber a hora de se defender, os movimentos, vem naturalmente, como andar.


Eu não tenho Leis;

Eu faço da Proteção Pessoal minha Lei.


Apesar do conceito de vida do Samurai ser bem mais amplo, este cultiva grande apreço pela própria integridade, pela aptidão a estar pronto para lutar.

O ritual diário do Samurai, é intrinsicamente ligado ao seu relacionamento com a espada, envolve várias minucias que incluem o jeito certo de andar, sentar-se, fazer reverência, e até descansar sempre sem perder de vista a forma mais eficiente de desembainhar a espada e entrar em combate em caso de perigo.

O Samurai vai sim defender seu senhor com a vida, mas sem se descuidar da própria.


Eu não tenho Estratégia;

Eu faço do “Direito de Matar e Restaurar Vida” minha Estratégia.


Herança do Xintoísmo, e seu preceito de que “A espada que derrota o mal, restaura a vida”.

Hoje pode ser interpretado de forma mais leve, aquele que combate a injustiça de uma forma geral, restaura a vida.

Mas a frase se refere ao Japão feudal, quando ainda não existia um estado unificado e as leis e a ordem eram impostas sob o fio da espada.

Então, quando um facínora era morto, sua morte beneficiava a vida de todos os demais, pois estes não mais seriam importunados por ele, tornando a existência deles melhor, de certa forma restaurando-lhes a vida.


Eu não tenho Planos;

Eu faço da “Captura das Oportunidades pelos Colarinhos” meus Planos.


Mais uma vez um indicativo de como viver um momento por vez é importante para o Samurai.

O Bushi vivia em uma época de poucas constantes, basta nos lembrar que a localização e geografia do Japão,

com seus tufões, terremotos e clima rigoroso, fazem dele até hoje um ambiente inóspito.

Some-se a isso guerras entre clãs e duelos pessoais, e vai ter ideia do porque o Samurai valorizava tanto cada momento.


O Samurai vive cada momento como se fosse o ultimo daquela existência. Apesar de ver a vida de uma forma mais ampla,

cada ciclo de existência gera um karma, levar bom karma para a próxima vida (através de uma morte digna) é seu unico propósito.


Eu não tenho Milagres;

Eu faço das Leis Justas meu Milagre.


As leis justas são as leis da natureza,

que é o maior milagre de todos.


Eu não tenho Princípios;

Eu faço da Adaptabilidade a todas as circunstâncias meu Princípio.


Uma das lendas nipônicas sobre a origem do Jiu-Jutsu, chamada “A cerejeira e o Salgueiro“, conta a história de um médico e filósofo chamado Shirobey Akiyama.

Precursor da medicina psicossomática ele também deu origem à uma das maiores heranças do Japão observando o comportamento dos galhos de cerejeira e do salgueiro sob a neve.

Os galhos da cerejeira permaneciam firmes enquanto a neve se acumulava, até o ponto em que não suportavam mais o peso e se quebravam.

Os galhos do salgueiro por sua vez, iam sedendo até o ponto que a neve caía de cima deles e estes voltavam à posição inicial.

Em resumo, devemos ser resilientes para não quebrar.


Eu não tenho Táticas;

Eu faço do Vazio e do Pleno as minhas Táticas.


O caminho do vazio é o caminho do início, onde todas as coisas são novas, onde cada novo passo é um estado de graça.

Ser pleno, é perceber o mundo com a admiração que tinhamos quando crianças, quando tudo era novo e impressionante.

Nós planejamos muito. Vivemos tão longe no futuro, que às vezes nos esquecemos do aqui e agora, onde as nossas vidas estão acontecendo.


Eu não tenho Talento;

Eu faço da minha Perspicácia meu Talento.


Não precisamos de talento, tudo o que precisamos é de uma mente apta a ver e entender, e podemos saber tudo, e ser tudo pois aprenderemos conforme seguimos adiante.


Eu não tenho Amigos;

Eu faço da minha Mente minha Amiga.


Nós vivemos muito dependentes de outras pessoas, para companhia, para o amor, para a felicidade.

Se queremos ser felizes, devemos ser felizes com a pessoa com a qual nós já nascemos, nós mesmos.


Eu não tenho Inimigos;

Eu faço da Inadvertência meu Inimigo.


As palavras impensadas, a coisa errada feita às pressas.

Estes são os inimigos.

Coisas feitas sem cautela são nossa unica ruína.


Eu não tenho Armadura;

Eu faço da minha Benevolência minha Armadura.


Não precisa de armadura aquele que não corre perigo.

Não corre perigo aquele que não oferece perigo e é benevolente.

Isso significa que nunca teremos problemas? Claro que não, apenas que não vamos procura-lo.

A armadura te dá uma falsa sensação de segurança. Ausência de culpa e sabedoria são nossas unicas reais defesas.


Sem culpa, sem punição, e sábio não se colocar no caminho de problemas ou perigo.


Eu não tenho Castelo;

Eu faço da Mente Impassível meu Castelo.


Castelos são grandes pedras empilhadas como um jogo de blocos para crianças, apenas maiores…

Castelos com suas torres e cidadelas eram visões dissuasivas, mas não impenetraveis, e isso já a vários séculos atrás. Com o advento dos novos meios de guerra (Bunker-busters, armas termobáricas, laser de estado sólido aerotransportado, etc…) a mais incrível fortificação pode ser feita em migalhas em um piscar de olhos… Nosso único e sacrossanto refúgio é nossa mente, onde podemos realmente ser intocáveis.


Eu não tenho Espada;

Eu faço de Mushin minha Espada.


Mushin é o estado mental do vazio,

da perfeição do zero.

Um estado mental de puro potencial,

sem a busca pelas ações e portanto pronto para qualquer coisa.


Se entrar em confronto, seu rival é todo o adversário de que você precisa,

deixe de lado o embate consigo mesmo,

seus conceitos e preconceitos não tem valia, são uma carga dispensável neste momento.


Em mushin estamos a encargo do incrivel potencial latente do nosso subconciente.




Referência: Poema e explicações retirado do site:http://www.canseidesercowboy.com.br/blog/2010/01/

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